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CORAGEM PARA DAR UM BASTA
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CORAGEM PARA DAR UM BASTA

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

CORAGEM PARA DAR UM BASTA

Quantas vezes você precisou tomar uma atitude que exigiu coragem em sua vida? O cotidiano de Terezinha Theodoro, 43 anos, é marcado pelo medo, mas sobretudo pela coragem. Com apenas oito anos, começou a sofrer abusos sexuais de um parente próximo. Precisou ter coragem para lutar contra o abusador.

- Eu tinha 12 anos quando mordi o órgão genital dele. Não sei se foi do tapa que ele me deu ou se bati numa árvore, mas acabei quebrando a raiz do dente. Quando cheguei em casa, com a boca machucada, menti que tinha caído na escola e apanhei de novo. Afinal, não era para ficar correndo no colégio – conta Terezinha.
Por longos oito anos, essa foi a rotina de Terezinha: tentar fugir dos abusos do tio e esconder os estupros dos pais.

- Eu tentei contar, mas fiquei com medo da reação do meu pai – recorda.

Na interminável luta contra os abusos do tio, ela parou de estudar para ajudar a família na entrega do leite. Os estupros não cessaram.

- Eu caminhava oito quilômetros até a cidade. Para que ele não me pegasse, eu ia por caminhos mais longos. Como demorava para chegar em casa, acabava apanhando do meu pai – diz.

O tio sempre conseguia um jeito de coagir a menina. Normalmente, o abusador sempre ameaça a vida do pai e, posteriormente, ameaça de morte também a mãe:

- Meu tio fazia chantagem comigo. Ameaçava matar meu pai. Depois de um tempo, passou a ameaçar fazer o mesmo com minha mãe. Eu me sentia culpada. Passei a ser um fantoche.

Com 16 anos, Terezinha deixou a pequena cidade de Ametista do Sul para viver em Porto Alegre. Livre dos abusos físicos, mas eterna vítima dos transtornos psíquicos, foi trabalhar na Capital. Voltou a estudar. Havia parado de frequentar a escola na quarta série. Fez cursos e buscou aperfeiçoamento. Comprometida em tirar boas notas, ficava nervosa quando tinha prova:

- Toda vez que eu tinha prova acabava desmaiando - revela.

Com apoio pedagógico, foi tentar entender a origem do trauma que causava os desmaios. Finalmente, conseguiu contar para alguém os abusos que sofrera na infância. Os desmaios eram os mesmos sofridos enquanto era abusada pelo tio.

- Depois de um tempo, eu passei a não sentir mais dor enquanto era estuprada. Eu apagava e acordava sozinha, com manchas de sangue.

Em 2018, Terezinha veio morar em Canela a convite da irmã. Aqui teria a qualidade de vida necessária para criar a filha. Trabalhou por um ano e meio em supermercado. Depois, foi contratada para atuar na área administrativa de uma empresa. O serviço ia bem. Tinha estabilidade financeira e comodidade de horários. Única mulher no escritório, passou a receber indiretas do seu superior imediato. Indiretas que logo passaram a assédio:

- Começou com piadas. Depois, vi fotos minhas na tela do celular dele. Com o tempo, eu não podia mais ficar no escritório. Tinha que estar sempre com ele fazendo serviços externos. No carro, ele passava a mão nas minhas pernas – revela.

Não demorou para que as passadas de mão indesejadas virassem um ataque à força por uma relação a contragosto:
- Eu estava no meu computador. Ele passou pela minha cadeira e me agarrou. Eu fiquei a vida inteira pensando: se algum homem me encostar contra a minha vontade, eu o mato. No entanto, não sabia o que fazer. Passei oito anos da minha vida sofrendo chantagem. Apesar de ele ser menor do que eu, de ser um homem minúsculo, eu via um elefante na minha frente. Consegui conversar, fiz parecer que estava tudo bem e fugi do escritório com a caminhonete da empresa – relembra.

Após a tentativa de estupro, Terezinha continuou trabalhando na empresa. Relatou o fato aos superiores, mas nenhuma medida foi tomada. Sem forças e cansada dos assédios, tentou suicídio em duas oportunidades no ano passado.

- Me perguntam por que eu não reagi. Uma vítima de estupro nunca vai reagir. Tu sente o teu corpo paralisado por dentro. É como se tivesse formigando todo o teu peito e tu não consegue fazer nada.

CORAGEM PARA DAR UM BASTA
TEREZINHA Theodoro sofreu abuso aos 8 anos

Foto: Dani Bat

 

“NÃO É SEMPRE NÃO, INDEPENDENTE DE COMO É DITO”, SALIENTA ADVOGADA


O caso de assédio contra Terezinha foi parar nos Tribunais. Além da Justiça do Trabalho, que a vítima ganhou em primeira instância, tramita uma ação na esfera criminal. Conforme a advogada Cíntia Chaves, que defende Terezinha na causa trabalhista, a defesa entrou com um pedido de rescisão indireta contra a empresa. “O processo é lento. É necessário provar que houve o assédio. Ganhamos em primeira instância, mas a empresa recorreu e segue recorrendo mesmo tendo tomado uma postura equivocada”, diz a advogada.

Cíntia diz que fez contato pessoalmente com os responsáveis pela empresa. “Eles disseram que o não dela para os assédios precisava ser mais incisivo. No entanto, não é sempre não, independente da forma como é dito”, frisa a defensora.

Os assédios na empresa foram registrados entre janeiro e fevereiro de 2021. Para Terezinha, o assédio ficou configurado quando o chefe começou a tirar satisfação por conversas com outros homens. “Uma vez emprestei meu celular e ele mexeu no meu Whatsapp. Viu uma conversa minha com o pai da minha filha e veio questionar. Nesse momento, entendo que passou a ser assédio. Tive que passar a defender meu emprego sob ameaças”, diz.
Após sucessivas investidas, o chefe tentou agarrar a funcionária à força. Para preservar o emprego, Terezinha tentou conversar. Contou ao superior o histórico de abusos que sofreu na infância. “Parece que ficou pior. Quando ele viu que não iria ceder, passei a ser perseguida. Pedi para ser demitida, mas argumentaram que a empresa precisava dos dois”, afirma.


SUICÍDIO

Em 10 de fevereiro de 2021, ela tentou suicídio pela primeira vez. “Eu estava disposta a me jogar de um penhasco. Fui salva por uma enfermeira, a Janice Wolff. Ela passou por mim e perguntou se eu precisava de ajuda. Respondi que não aguentava mais os assédios do meu chefe. Ela me pegou e me levou para o CREAS”, recorda.

Em crise, Terezinha foi atendida por uma equipe especializada. Ficou em casa com atestado para tratar da saúde. Na empresa, foi ameaçada de demissão por justa causa. Em 17 de fevereiro, tentou novamente suicídio. “Não entendia porque sempre comigo. Me sentia culpada. O que eu fiz para provocar? Estava determinada a parar tudo por ali. Tomei quatro comprimidos a tarde e 10 a noite. Não tinha mais forças para lutar”, relata.

Enquanto sofria com os efeitos da medicação, recebeu o telefonema da amiga Cláudia Vilegas. “Ela disse que estava com o coração apertado em relação a mim. Eu disse que a amava e me despedi. Em pouco tempo, chegou o socorro na minha casa. Fui encaminhada ao hospital para uma lavagem estomacal. Foi a Cláudia quem salvou minha vida. Mesmo com Covid-19, ela acionou vários amigos”, agradece.

 

ATROPELAMENTO

Em tratamento para a depressão, Terezinha passou a ter que lutar também contra a perseguição do colega de empresa. Conforme a vítima, um carro com dois homens usando a jaqueta da firma tentou a atropelar em outubro de 2021 - uma semana depois que ela conseguiu uma medida protetiva. “Eles jogaram o carro na minha direção e arrancaram. Sorte que eu não estava com minha filha. De fevereiro a outubro, sofri muito nas mãos deles. Meu ex-chefe passava quatro vezes por dia na frente da minha casa. Tenho uma medida protetiva por tempo indeterminado”, afirma Terezinha, aliviada.

 

“FIQUEI PLANEJANDO POR MUITO TEMPO MATAR MEU ABUSADOR”

Terezinha Theodoro recorda com exatidão da primeira vez em que foi abusada pelo tio. “Eu estava levando leite para a cidade. Quando fecho os olhos, ainda escuto o barulho do tarro de leite caindo no chão. Lembro do cheiro do cigarro dele. Sempre evitei comentar e, quando falo sobre o assunto, tenho vontade de vomitar”, conta a vítima, com lágrimas nos olhos.

Sob as ameaças do abusador, ela viveu até os 16 anos. “Eu fazia de tudo para evitar, mas não conseguia. Fiquei planejando por muito tempo matar meu tio”, revela.

Depois de adulta, Terezinha conta que conseguiu conversar com o tio. O encontro ocorreu numa igreja em Ametista do Sul. “Perguntei por que ele fazia aquilo. Ele disse que quanto mais eu resistia, mais ele sentia prazer. Vi que estava na frente de um homem doente. Tenho certeza que ele não imaginou que iria encontrar uma mulher tão forte”, diz.

 

TRAUMAS

Apesar de superar os abusos sofridos do tio, ela conta que a sexualidade sempre foi um tabu na sua vida. “Eu não conseguia ter relações e nunca quis casar. Os médicos disseram que eu não poderia ter filhos por conta das lesões sofridas na infância. Felizmente, consegui engravidar”.

Outro trauma que carrega é não conseguir sentar na grama. “Não consigo. Na maioria das vezes, meu tio me pegava no mato. Eu acordava com os cabelos cheios de folhas de árvores. Não posso sentir uma folha presa entre meus cabelos”, revela.

Para Terezinha, quase pior do que os abusos do tio eram as surras que levava do pai por demorar a chegar em casa. “Eu não podia contar onde estava. Também escondia minhas roupas sujas de sangue. Quando aprendi a rezar, não sentia mais o cheiro dele e nem dor. Quando acordava, estava ali sangrando sozinha. Em função da demora para voltar, acabava apanhando”, resume.

 

A FACA BRANCA DO PAI

Os abusos cessaram quando Terezinha conseguiu tomar coragem para enfrentar os desmandos do agressor. Como de costume, ela obedeceu a ordem do tio e foi ao local marcado por ele para mais um encontro sexual. Levou junto consigo uma faca. “Peguei a faca branca do pai escondida. Fui e fiquei esperando sentada, com a faca do meu lado”.

Quando o abusador chegou, a menina deu o recado: “Ou eu te mato ou tu vai ter que me matar”, ameaçou.
O aviso foi o ponto final nas agressões. O tio virou as costas e foi embora. Depois, Terezinha foi morar em Porto Alegre e pensou que nunca mais voltaria a sofrer violência sexual novamente. Ledo engano!

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TEREZINHA luta para superar traumas

Foto: Dani Bat

 

“DESEJO QUE OUTRAS MULHERES CONSIGAM DENUNCIAR”

Em depressão por ser novamente vítima de violência sexual, Terezinha encontrou apoio na rede de proteção. Foi atendida por equipes multidisciplinares no CREAS, CAPS, DP de Mulher, Secretaria de Assistência Social e na Casa Vitória. “Vi que não estava sozinha. Todos os atendimentos foram muito importantes”, agradece.

Terezinha conta que conheceu a Casa Vitória após o afastamento do trabalho. “Não precisei ficar na casa, mas recebi todo o acompanhamento da equipe”. Para ela, a rápida ação da rede foi fundamental. “Em menos de uma hora e meia, eu já tinha uma medida protetiva. Hoje, está tudo muito rápido”, diz.

Com seu exemplo, ela pretende encorajar outras mulheres que sofrem em silêncio. “Busquem ajuda. O fato de estar falando agora é por estar cansada. Desejo que outras mulheres consigam denunciar. Se eu consegui, espero impedir que outras continuem sofrendo agressões”, incentiva.

Terezinha continua fazendo tratamento e lutando por justiça, mas consegue viver com mais tranquilidade. Com incentivo da amiga Ana Paula Juwer Welter, ingressou na faculdade de Serviço Social da Uninter e faz curso de Massoterapia. “Depois de duas tentativas de suicídio, estou lutando e mostrando meu rosto, contando um resumo do que aconteceu porque decidi lutar pela minha vida e pela de outras mulheres que ainda se calam no medo. Hoje, agradeço por não ter conseguido me matar. Quando procuramos ajuda, brota gente. Eu pensava estar sozinha, mas não estamos”, conclui.

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VÍTIMA tenta na Justiça reparo por assédios

Foto: Dani Bat


UM ESTUPRO A CADA 10 MINUTOS

Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública(FBSP) mostra que mais de 100 mil meninas e mulheres sofreram violência sexual entre março de 2020 e dezembro de 2021. No ano passado, o Brasil registrou um estupro a cada 10 minutos e um feminicídio a cada 7 horas, segundo o estudo. O documento foi elaborado a partir dos boletins de ocorrência das Polícias Civis das 27 unidades da federação.

Para a advogada Cíntia Chaves, é importante que as mulheres denunciem casos de violência. Conforme ela, muitas mulheres vivem numa relação abusiva por medo das ameaças feitas pelos companheiros. “Muitas ainda acreditam que irão perder a guarda dos filhos em caso de separação. Parece inacreditável, mas muitas mulheres continuam aceitando viver numa relação tóxica por medo”, afirma Cíntia.

 

 

 

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