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ELAS TÊM BANDEIRA
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ELAS TÊM BANDEIRA

Para mais da metade dos brasileiros (56,1%, segundo o IBGE), que constituem a população que se declara negra e parda, de anos para cá outra data passou a ser mais importante e comemorada do que o 13 de maio (dia da Abolição da Escravatura). É que, desde a instituição do 20 de novembro como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, em 2011, elegeu-se a figura do líder do Quilombo dos Palmares como verdadeiro merecedor de homenagens pela luta dos direitos dos negros. Muito mais que a Princesa Isabel e sua Lei Áurea, que, se libertou escravos, os deixou entregues à própria sorte.
O tempo passa, o convívio em sociedade teoricamente melhora mas a luta contra o preconceito racial continua. Fomos conversar sobre o assunto com três mulheres canelenses não só conscientes mas de atitudes muito firmes na batalha pela plena igualdade entre negros e brancos: Ana Lúcia Fortes da Silva, RP e Analista de Comunicação na Gramado Parks, sua mãe Maria Cristina Fortes da Silva, servidora da Fazenda Estadual aposentada e Maria Gorete Rodrigues, doceira de mão cheia, até à pouco trabalhando em hotel cinco estrelas e adoradora de literatura (com direito a premiação em concurso da Habitasul, como já noticiamos aqui no NE). Já na maneira de se apresentarem para o bate papo elas passaram uma mensagem cheia de simbolismo sobre uma forma de aceitação das mulheres negras que foi mudando: o cabelo. Maria Cristina gosta de usar o turbante, maneira ancestral das negras cobrirem a cabeça; Gorete e Ana Lúcia estavam com os cabelos alisados, hábito que mantém até hoje. E para mostrar o quanto é lindo e digno de orgulho, hoje, exibir um cabelo crespo e cacheado, Maria Gorete trouxe para as fotos duas netas, a menina Lívia e a adolescente Laura.
Ana Lúcia - que, a propósito, aniversaria no 20 de novembro - já sentiu ferver o sangue ao ouvir uma ex-colega deixar escapar a expressão “negrice”. Já ficou perplexa diante de uma cliente, em um lugar onde trabalhou, quando esta lhe perguntou se a Relações Públicas viria ou não, mesmo depois de Ana ter formalmente se apresentado como tal. Quanto ao seu cabelo, mantido liso até hoje e uma quase imposição de mais de vinte anos atrás, ela não pensa ainda em fazer a chamada transição capilar e deixá-lo encaracolar.
Maria Cristina, antes de ser funcionária pública, trabalhou no comércio. Estudiosa e com facilidade para as contas, cursava o segundo grau e não conseguia emprego para deixar de ser doméstica (apesar de ser tratada como filha na casa de Normandio Zanatta, onde trabalhava). Graças à indicação elogiosa de uma amiga, Maria Lúcia Manéa, assumiu no escritório de uma casa comercial então importante em Canela, a loja de Serafim Dias & filhos. Cristina brinca que “todas nós temos a nossa Princesa Isabel e Maria Lúcia foi uma, para mim”. “Se hoje eu e a minha família não aceitamos o tratamento preconceituoso, é porque os nossos antepassados nos ensinaram a não baixarmos a cabeça”, diz Cristina, que ressalta que, em relação à discriminação racial, a mulher sempre sofreu mais preconceito que o homem. Ela não esquece da ironia velada numa pergunta que lhe fizeram: “Como tu entrou na Fazenda Estadual, Cristina?” Ela respondeu de pronto: Não foi pela porta dos fundos. Prestei o concurso e fui muito bem classificada”.
Maria Gorete confessa que não teve muitos dissabores quanto à cor de sua pele porque, por temperamento e por buscar o conhecimento, sempre soube se impor. Mas já se magoou ao ouvir comentários como “ela é tão talentosa, imagina se fosse branca”. Antes de trabalhar na hotelaria, Gorete já chamava a atenção por iniciativas como ser a única mulher, e negra, na sua turma no treinamento para bombeiro civil em Joinville (SC). Trabalhou no combate a muitos incêndios por aqui, como o da fábrica de móveis Dinnebier em Gramado, e foi mostrada em uma reportagem da Zero Hora. Defender a sua etnia, no entanto, não tornou Maria Gorete uma radical. Ela é contra, por exemplo, a cota reservada para negros em universidades e outras atividades. Para ela, o que vale é a capacidade e o merecimento. “Onde tem a cota para negros, já está ali o preconceito. Prefiro uma cota para pobres”, ela diz. Quanto à sua “Princesa Isabel”, Maria Gorete indica Maria Tereza Druck Bastide, a quem chama de “minha dinda”, ex-diretora do Hotel Laje de Pedra que sempre soube valorizar uma colaboradora exemplar como Gorete.
Altivas e de personalidade forte, essas mulheres conquistaram espaços e deixarão legados. Uma frase de Maria Gorete Rodrigues pode muito bem sintetizar o orgulho das três: “Eu não tenho meio termo. Ou você é branco, ou é preto. Eu tenho bandeira”.

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ANA Lúcia e sua mãe

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DA esquerda para a direita: Maria Gorete, Lívia, Laura e Maria Cristina

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